2 de ago. de 2009

Vou de Kombi, mesmo

Dono de importado tenta usar carro para se vingar de feirante

Texto: Mirna Bom Sucesso
Fotos: Divulgação

O feirante da barraca de panelas tinha uma Kombi, óbvio. O dono do supermercado localizado na rua da feira tinha um importado, quase óbvio. Depois que o dono do supermercado teve a panela favorita de sua mulher desamassada com perfeição pelo feirante, os dois ficaram amigos de terças-feiras. Falavam de futebol, de mulher e de carro. Foi assim por dois anos, até que, um dia, o dono do importado pediu: “me empresta a Kombi?”; e o feirante disse: “não”.

Os motivos eram óbvios, tanto que o feirante nem se incomodou em explicar. Ficava ali às terças-feiras, mas a Kombi era sua ferramenta de trabalho no resto da semana em outros bairros. O dono do supermercado, por sua vez, foi tomado de um ódio tão cego que só lhe deixou ver entre as frestas dos olhos cerrados as próprias razões. “Isso não fica assim”, pensou.

No livro “Ética dos Ancestrais”, os rabinos esclarecem que há uma gradação na natureza do ódio. O sujeito que é fácil de provocar e também fácil de apaziguar; o sujeito que é difícil de provocar e também difícil de apaziguar. Esses são tolos. O sábio: o sujeito que é difícil de provocar e fácil de apaziguar. E o perverso: sujeito que é facil de provocar e difícil de apaziguar. (Será que há algum sábio dirigindo?)

Infelizmente, o dono do supermercado enquadrava-se na última categoria, o sujeito que faz a manutenção do ódio, conservando-o por dias, meses, anos, por toda a vida, se necessário, até que possa revidar.

No caso do proprietário do importado, a espera levou três meses. O feirante tinha conhecido uma mina da hora e queria impressioná-la. Pediu: “Me impresta o importado?”. Ao que o dono do importado respondeu: “Sim, empresto. Empresto porque eu não sou como você!” Ele quis dizer: sou melhor, não só porque empresto, mas porque empresto algo muito melhor do que sua Kombi.

O feirante, claro, sentiu-se ofendido em sua humanidade. Recusou o importado para impressionar a mina e foi de Kombi mesmo (que, no fim das contas, gerou divertimento garantido no banco de molas). Os dois nunca mais se falaram às terças-feiras, justo agora que o campeonato brasileiro está pegando fogo, a indústria automobilística tem um lançamento atrás do outro e a mulher Melancia posou para Playboy.

A compreensão é uma das virtudes que separam o tolo do sábio. A distância pode ser equivalente a dar duas voltas ao redor do mundo em um Lada. Ainda assim, é preciso colocar um mecânico no banco do passageiro e percorrê-la. Quanto mais nos sentimos diferentes dos outros, quanto menos formos capaz de compreender suas razões, mais estamos propenso ao ódio, ao rancor e à inveja. O resultado disso tudo no trânsito a gente já sabe o samba que dá. O que a gente ainda não sabe – e nem se dá o direito de – é saber como seria se fosse de outro jeito.

1 de ago. de 2009

VW Jetta Variant tem um senhor motor, mas o câmbio...

Essa coisa de sorte não existe apenas para pessoas, mas também para automóveis. Alguns veículos da VW, por exemplo, costumam dar sorte, caso do Gol, e outros têm um azar lascado. É o caso da Jetta Variant, um carro excelente que sai prejudicado por alguns fatores pelos quais ela não pode responder. Não por todos, pelo menos.

O primeiro é seu preço, de R$ 81,19 mil, mas que pode chegar a R$ 101,39 mil, se ela trouxer, como o modelo avaliado, teto solar panorâmico e outros equipamentos. Acima da faixa de preço em que ela, como perua média, deveria se situar, isso afasta potenciais compradores.

O segundo foi a demora em seu lançamento no Brasil, demora que também atingiu o modelo que deu origem a ela, a Golf Variant, apresentada apenas em 2007. Com pouco mais de um ano de mercado por aqui, ela já é ameaçada pela iminência de sua reestilização.

Isso porque ela deve ganhar ainda este ano, no mercado norte-americano, a dianteira da sexta geração do Golf. Como a Jetta Variant que vai para os EUA é a mesma que vem para cá, das duas, uma: ou ela deixa de ser importada ou vem para cá com a mesma dianteira. Com isso, o modelo atualmente à venda vai sofrer desvalorização.

A desvalorização da perua, aliás, não se deverá apenas a sua nova aparência, mas também à fama que ela e o Jetta carregam de serem carros beberrões. A verdade é que os dois modelos gastam razoavelmente porque têm um motor que emociona quem gosta de carros. O cinco-cilindros de 2,5-litros, 170 cv e 240 Nm de torque não apenas responde de modo excelente aos comandos do acelerador como também tem um ronco que é inconfundível. Isso, evidentemente, se deve ao trabalho que a VW fez com seus escapamentos, mas o ronco é simplesmente delicioso, talvez mais para quem está ao volante da perua do que para quem esteja fora do carro.

Para quem vai por dentro, não é só o motorista que pode encontrar alguma satisfação. Os passageiros também contam com um bom espaço interno e bastante espaço para as bagagens. O porta-malas tem 505 l.

Ao volante

O preço, em parte, se justificica pelo nível de acabamento da Jetta Variant, que está muito acima da média do dos carros nacionais. A perua é carinhosa com o motorista, permitindo a ele todas as regulagens necessárias a uma boa condução: altura do banco e altura e distância do volante. Os bancos acolhedores também convidam a uma direção mais esportiva. O problema é o câmbio.

Quem olhar a ficha técnica vai achar que estamos reclamando de barriga cheia. Afinal de contas, o câmbio da VW é um automático de seis marchas, coisa que só carros mais sofisticados se atrevem a oferecer (cobrando por isso), mas não é o número de marchas que afeta a dirigibilidade. É o software de gerenciamento.

Foi por conta dele que cometemos uma injustiça, que agora aproveitamos para retificar. Ela foi cometida contra o câmbio DSG do Passat V6. Dissemos na época que ele parecia demorar a reagir. Pois é o mesmo comportamento do câmbio da Jetta Variant. Se você tentar recuperar velocidade rapidamente depois de pisar no acelerador, desista. O câmbio demora a entender que você quer voltar a acelerar e fica pensando, pensando... Dá para perder a paciência, com ele.

Dinamicamente, uma perua de 4,56 m e quase 1.500 kg não tem, evidentemente, a mesma agilidade de modelos menores, mas ela anda direitinho. Só não se pode exigir dela curvas rápidas, já que ela tem bastante tendência de sair de dianteira.

Se você está pensando em comprar uma perua, a Jetta tem diversas qualidades que justificariam sua aquisição, mas, a não ser que você queira um veículo que vai desvalorizar rapidamente, o melhor seria esperar pela reestilização. Quem sabe não vem também um câmbio mais digno do motor fantástico que está sob o capô?

FICHA TÉCNICA – VW Jetta Variant

MOTORQuatro tempos, cinco cilindros em linha, transversal, refrigeração a água, 2.480 cm³
POTÊNCIA170 cv a 5.000 rpm
TORQUE240 Nm a 4.250 rpm
CÂMBIOAutomático de seis velocidades
TRAÇÃODianteira
DIREÇÃOPor pinhão e cremalheira, hidráulica
RODASAro 17”, de liga-leve
PNEUS225/45 R17 na dianteira e na traseira
COMPRIMENTO4,56 m
ALTURA1,47 m
LARGURA1,78 m
ENTREEIXO2,59 m
PORTA-MALAS505 l
PESO (em ordem de marcha)1.466 kg
TANQUE55 l
SUSPENSÃODianteira independente, tipo McPherson; traseira independente, tipo multilink
FREIOSDiscos ventilados na dianteira e discos sólidos na traseira
CORES Branco Cristal, Preto Ninja, Azul Shadow, Bege Trigo, Cinza Platinum, Prata Sargas, Verde Nórdico, Vermelho Spice e Preto Mystic
PREÇOR$ 81,19 mil (R$ 101,39 mil conforme avaliado)